Animais de estimação: como eles podem ajudar na saúde mental?

Na dúvida sobre adotar um animal de estimação? Entenda aqui, tudo o que eles podem trazer de positivo para a sua saúde mental, física e emocional

21 de março de 2023 - às 18h24 (atualizado em 12/5/2023, às 20h11)

cachorro branco na frente sendo conduzido na coleira por crianças ao fundo
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Animais de estimação ou pets – termo em inglês bastante utilizado no Brasil -, são animais domésticos escolhidos para conviver, fazer companhia, trazer diversão, conforto e até aumentar a autoestima das pessoas. Dessa forma, cães, gatos e outros animais estão cada dia mais presentes nas vidas dos seres humanos, seja através da adoção ou da compra de um bichinho.

Segundo o censo do IPB (Instituto Pet Brasil), realizado em 2021, o Brasil é o terceiro país com mais animais de estimação no mundo, chegando a quase 150 milhões de bichinhos, o que mostra que cerca de 70% da população brasileira possui algum pet. Para essas milhões de pessoas, ter um animal de estimação promove um ciclo de amor, tem efeitos positivos na saúde física, mental e no humor. Optar por dividir a vida com animais é um bem que se faz a si mesmo, pois a influência deles na saúde humana é enorme.

A prova do poder que os animais exercem sobre nossa saúde mental é a Terapia Assistida por Animais (TAA). Esse procedimento tem como resultado a melhoria física, mental e emocional do paciente.

 

Terapia Assistida por Animais

A psicóloga Juliana Bertolette Rocha trabalha com crianças que têm transtorno do espectro autista (TEA), utilizando e incentivando a terapia com animais. Ela conta que a TAA é uma prática utilizada com adultos e crianças, que se encontram em algum tipo de tratamento ou transtorno, como câncer, Síndrome de Down, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), hidrocefalia, microcefalia e o próprio TEA.

Ela explica que, normalmente, se utilizam cães e cavalos, por serem mais receptivos, todos os animais têm um treinamento específico e que há raças também específicas que são mais utilizadas, como cães labradores e golden retrievers, pois são cachorros que gostam de companhia, aceitam carinho e respondem bem.

“Essa terapia envolve o contato do paciente com os animais, sempre buscando o processo de melhora ou cura, acompanhada por profissionais da saúde, terapeutas, psicólogos, médicos e psiquiatras”, esclarece Juliana.

Antes de iniciar o tratamento, uma equipe multidisciplinar faz uma triagem, pois não é qualquer paciente que pode fazer essa terapia. Em muitos casos, depende do grau de TEA ou Síndrome de Down (também conhecida como trissomia do cromossomo 21), por exemplo.

“Paciente com TEA com grau 3, que é o mais alto, o mais grave, vamos dizer assim, precisa passar por uma avaliação para ver se ele não é agressivo, e se for, ele é autoagressivo ou ele agride os outros? Porque se ele agride outras pessoas ou animais, ele não é apto para essa terapia, porque ele pode machucar o animal e o animal também pode por defesa, vir a machucá-lo”, alerta a psicóloga.

Para Juliana, existem muitos benefícios e mudanças, que embora ainda não sejam comprovados por estudos, são perceptíveis. Como o trabalho com o foco da criança, a atenção, fazer a criança perceber que existe outro ser ali além dela. A criança com TEA vive no mundo dela, dependendo do nível do transtorno, ela utiliza as pessoas para benefício próprio, como pedir ajuda para abrir uma porta ou para fazer aquilo que ela não consegue. Em situações como essas, a criança busca o auxílio de quem estiver mais próximo.

A psicóloga aconselha que, em casos de TEA leve ou moderado, os pais adotem um cachorro, que seja ativo de uma forma que promova qualidade de vida para a criança, não que vá atormentá-la de maneira que a desestabilize, e nem um cachorro que seja muito tranquilo. As opções mais indicadas são os já citados labradores e goldens.

A grande vantagem do convívio com um animal para a criança é perceber como cuidar do outro, por ser um ser vivo. Juliana aponta que é muito interessante como os cães conseguem se conectar melhor com as crianças com TEA do que com um adulto. “Eles percebem quando elas vão entrar em uma crise, quando elas vão se desregular, eles conseguem ajudar aquela criança a voltar a se reorganizar”.

Já na equoterapia (método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo em uma abordagem interdisciplinar, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência e/ou necessidades especiais), é necessária uma adaptação para introduzir um paciente nesse tratamento.

Segundo Juliana, primeiro a criança vai conhecer o estábulo, vai ver onde o cavalo vive, vai cuidar daquele espaço, aprender a cuidar daquela rotina, para que depois aconteça aos poucos uma aproximação cautelosa, para que a criança não se assuste com o tamanho do animal. Então ela vai começar a se acostumar a tocar, a levar o cavalo para passear, a dar comida, a cuidar do cavalo, até ela estar pronta e apta para montar. Tudo isso é assistido tanto pelas pessoas que trabalham no haras quanto pelos terapeutas que acompanham o paciente.

 

Benefícios dos animais de estimação

A psicologia reconhece diversos pontos positivos trazidos para crianças e adultos que convivem com animais de estimação, como redução do estresse, combate às crises de depressão, ansiedade e aumento do senso de responsabilidade. Eles conseguem alegrar a nossa rotina assim que entram em nossas vidas.

O psicólogo Renan Gonçalves Locatelli acrescenta outros benefícios promovidos pelos bichinhos. “De modo geral, pode-se admitir que afetos positivos sejam evidenciados, como o amor ao próximo, a tolerância e a capacidade de lidar com imprevistos.”

Mas antes de adotar um animal de estimação, Locatelli orienta que é preciso considerar muitas variáveis, desde os fatores mais objetivos, como faixa etária, identidade de gênero, estado civil e tipo de animal que já faz parte de seu convívio, até os mais subjetivos, como história de vida do sujeito, dinâmica familiar e desejo de cuidar de um pet.

Brincar, fazer carinho ou abraçar um animal de estimação aumenta os níveis dos hormônios da felicidade, como dopamina e serotonina, trazendo efeitos calmantes, desestressantes e de bem-estar imediatos para o corpo e a mente.

A responsabilidade com o animal também traz seus benefícios, a necessidade de levar o pet para passear faz com que o tutor de um cachorro, por exemplo, saia de casa, caminhe ou corra, brinque e gaste energia junto com o animal.

Juliana aponta que no tratamento de ansiedade e de depressão, há melhoras muito significativas. “O pet tira a pessoa daquele estado, porque quando ela está deprimida, não quer sair de casa, não quer se levantar da cama, só quer dormir, e tem alguns estágios da ansiedade que o paciente se isola dentro do quarto”.

 

Ameniza a solidão 

A influência dos animais de estimação na saúde emocional acontece de diversas formas. Uma delas é combater, ou pelo menos amenizar a solidão. Morar sozinho, para algumas pessoas, pode acarretar problemas emocionais – caso ela se isole e não mantenha contato com amigos ou parentes -, conviver com um bichinho pode tornar a vida mais agradável. A companhia dos pets traz uma sensação de afeto, de segurança, de ser útil e necessário, o que pode ser muito importante para pessoas que passam muito tempo sozinhas.

Aumenta a atividade física 

Ter um cachorro, geralmente, faz com que seus tutores sejam menos sedentários, melhora a pressão arterial, taxas de colesterol e diminui o risco de arritmias, doenças cardiovasculares e morte precoce.

Restaura o amor-próprio 

A companhia e as brincadeiras com os pets estimulam o sistema límbico do cérebro, ligado às emoções. Eles conseguem tornar as pessoas mais felizes, criando e fortalecendo um elo de amizade. Isso proporciona o bem-estar de seu tutor e por consequência eleva a sua autoestima e sua autoconfiança, influenciando positivamente na sua saúde mental.

Reduz estresse e problemas de saúde mental

Após um dia estressante no trabalho, chegar em casa e ser recebido por um bichinho todo alegre melhora o humor de qualquer pessoa. Essa é mais uma das formas em que os pets podem influenciar na saúde mental, aliviando o estresse, aumentando o controle emocional e causando bem-estar com a sua companhia.

Ajuda a evitar depressão

Níveis altos de ansiedade e estresse podem levar a um quadro de depressão. Ter um animal de estimação é uma forma de evitar a doença. Um pet também pode ajudar no tratamento da depressão, pois ter que cuidar do bichinho serve de motivação para as tarefas do dia a dia.

Pode melhorar a vida social

Levar o pet para passear é uma boa maneira de socializar o animal. Consequentemente, esses passeios, na rua ou em parques, também promovem a socialização dos tutores. Fica mais fácil fazer amigos quando existe um interesse em comum.

Senso de responsabilidade

Ser tutor de um gato, cachorro ou outro animal faz com que a pessoa amadureça e aprenda a tomar decisões melhores, pois é preciso cuidar deles para que os pets estejam sempre saudáveis e felizes, o que os tornam ótimas companhias.

Ajuda a criar uma rotina

O animal depende totalmente de seu tutor para se alimentar, passear, tomar banho, entre outras coisas. Para isso, os donos de animais precisam criar rotinas que incluam os cuidados com seus pets.

 

Relação entre crianças e animais de estimação

É normal que as crianças fiquem encantadas quando veem um animal. Pode ser com um gato ou um cachorro na rua, um leão no zoológico ou um tubarão num aquário gigante. Mas são os bichinhos de estimação que oferecem uma compreensão mais real e profunda do mundo animal como um todo às crianças, e esse relacionamento próximo as influencia de várias maneiras.

As crianças costumam formar grandes vínculos com os animais, de acordo com o tempo que passa com eles. Cuidar de um animal pode ajudá-la a crescer mais segura e ativa, contribuindo para a autoestima e autoconfiança.

Locatelli ressalva que isso depende, necessariamente, da história de vida e da dinâmica psíquica de cada sujeito com seu meio familiar. “Como é constituída sua família? Que animal(ais) faz(em) parte de sua rotina? Quando eles passaram a participar da família? Qual a relação dessa criança com o(s) seu(s) pet(s)? É preciso tomar cuidado para não reproduzir fórmulas mágicas que, em tese, seriam benéficas ao desenvolvimento das crianças, como adotar um cachorro ou um gato e, com isso, acreditar que apenas tal ato seria suficiente para garantir sua felicidade”, pondera o psicólogo.

Antes de adotar ou comprar um pet, é preciso ter certeza que a criança realmente deseja a convivência com um animal. Se for o caso, essa ação pode despertar o senso de responsabilidade, a troca afetiva e o alívio da tensão nos pequenos.

Compreender isso, ajuda os pais a escolherem o animal certo. Eles atuam como colegas de brincadeiras quando as crianças são pequenas, são companhia ao longo da infância e para os pais também.

A psicóloga Juliana aponta a importância dos animais para ensinar às crianças sobre partilhar a atenção, pois segundo ela, muitas crianças não lidam bem com isso.

“Entender os limites do animal, perceber o outro, disciplina, pois o animal precisa do horário de comer, de passear, de brincar, de fazer as necessidades, quem tem que limpar, quem tem que cuidar, então você dá responsabilidade para aquela criança”, completa Juliana.

Os pets ainda podem influenciar nas habilidades sociais, saúde física e na concentração e desenvolvimento cognitivo das crianças.

Além disso, crianças que são filhos únicos tendem a se beneficiar da companhia dos animais, que algumas vezes cumprem o papel de irmão, trazendo conforto e se tornando uma parte mais importante de sua vida.

 

Como os animais se sentem?

Compreender como um animal vê o mundo é fundamental para que todos se deem bem. Entender que cada relacionamento entre um pet e uma criança é único e tem seus próprios benefícios, dificuldades e peculiaridades também é importante.

O comportamento dos animais depende das experiências que eles tiveram quando eram filhotes. Logo, o fato de serem bem ou maltratados durante esse período são coisas que vão influenciar em como ele vai se aproximar e aceitar novas pessoas, adultos ou crianças.

 

Coloque em prática

A menos que a pessoa não goste ou não possa ter animais, tê-los como companhia é muito positivo em aspectos mentais, emocionais e físicos.

Independente da situação em que a vida da pessoa esteja, se ela está morando sozinha ou não, se tem filhos ou não, ter animais de estimação pode prevenir problemas ou ajudar a superá-los com mais alegria e afeto genuíno.

Dê preferência para a adoção de animais. Procure por instituições sérias que promovam o bem-estar dos animais, façam castrações, atualizem vacinas e vermífugos. Isso é primordial antes de levar um bichinho para dentro de casa.

 

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