Exercício físico durante a quimioterapia: saiba a importância, os benefícios e os cuidados a serem tomados

A prática pode ajudar na redução de efeitos colaterais causados pelo tratamento

26 de abril de 2023 - às 16h51 (atualizado em 12/5/2023, às 20h43)

Senhor faz exercícios em academia
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Envato

Escrito por

Margarida Chiarastelli

Redatora

O Instituto Vencer o Câncer publicou, em 2015, uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, apontando que entre 72% e 95% dos pacientes são afetados por um cansaço extremo e que isso pode resultar na diminuição significativa da qualidade de vida. Além disso, a publicação diz que estudos mostram que a prática diária de exercício pode diminuir a intensidade desse sintoma em até 50%.

Outro dos efeitos da quimioterapia é que ela pode acarretar atrofia muscular. Quando isso ocorre, o paciente tende a sentir muita dor ao realizar movimentos, portanto, o exercício físico durante a quimioterapia pode ser muito útil. Além disso, os exercícios ajudam a manter a autoestima e inibem os sintomas do tratamento.

Daniel Gimenes, médico oncologista da Oncoclínicas São Paulo, mestre em ciências e membro das Sociedades Brasileira, Americana e Europeia de Oncologia Clínica (SBOC, ASCO e ESMO), aponta que existem estudos que mostram evidências de que a realização da atividade física esportiva durante esse tratamento pode diminuir eventos e efeitos colaterais. A prática também é positiva, pelo fato de alguns pacientes ganharem peso durante o tratamento. Resultado da diminuição das suas atividades físicas, aumento de alimentação e uso de medicações.

“A prática de atividade física vem de encontro ao nosso objetivo, que é fazer o paciente terminar bem a quimioterapia, todo o seu processo e a trajetória, que é difícil, como também não terminar com o ganho de peso, pois depois pode ser muito difícil para essa pessoa se recuperar”, explica.

Benefícios do exercício físico durante a quimioterapia

O oncologista aponta que depois da quimioterapia, essa atividade física esportiva se transforma em remédio e diz que já existem estudos que demonstram que os exercícios podem sim melhorar os resultados do tratamento oncológico, aumentando as chances de cura e reduzindo os riscos de recorrência metastática.

Mas seu principal benefício é o combate à fadiga. Isso ocorre porque os exercícios estimulam a produção de endorfina pelo cérebro e esse hormônio é o responsável por gerar a sensação de bem-estar. Conciliar treinos aeróbicos, como caminhadas, com treinos de fortalecimento muscular pode ser muito positivo nesse aspecto.

Luciana Bonfim Duarte, educadora física, pós-graduada em atividade física adaptada e saúde, em ginástica laboral e coordenadora do Grupo Atitude detalha alguns benefícios que a prática de exercícios durante o tratamento podem trazer.

  • Aumento de força muscular e resistência

A quimioterapia pode levar à perda de massa muscular e diminuição da capacidade física. O exercício regular pode ajudar nesse sentido, compensando esse efeito do tratamento.

  • Melhoria da qualidade de vida

O exercício pode melhorar o humor e reduzir a fadiga, o estresse e a ansiedade, o que traz essa melhora na qualidade de vida e pode ser muito importante nesse momento delicado pelo qual o paciente está passando.

  • Prevenção de doenças relacionadas à inatividade física

A inatividade física pode aumentar o risco de doenças cardíacas, diabetes e osteoporose. O exercício regular previne essas doenças.

  • Controle de peso

A quimioterapia pode levar a alterações no peso corporal e o exercício também ajuda no combate a mais esse efeito colateral do tratamento.

  • Melhoria do sistema imunológico

O exercício regular fortalece o sistema imunológico e, dessa forma, ajuda a reduzir o risco de infecções.

 

Cuidados a se tomar

Para que o indivíduo possa realizar exercício físico durante a quimioterapia, deve ser realizada uma avaliação médica e os exercícios devem ser supervisionados. Alguns pontos, como condição física, idade, doenças pré-existentes e sedentarismo são levados em consideração. Além disso, a atividade não deve ser muito intensa, o importante é que se tenha frequência.

Segundo Gimenes, a recomendação para quem já praticava atividade física antes, é continuar fazendo, mas retornar de forma cautelosa. “Para quem nunca fez atividade física, gosto de recomendar a prática de pilates, inicialmente para trabalhar as articulações, todos os grupos musculares e com o tempo, o paciente pode adotar uma atividade aeróbica mais intensa”, afirma o oncologista.

“Para os pacientes que não têm condição, uma simples caminhada, três vezes por semana, vai ajudar bastante. Como às vezes a pessoa já é sedentária, não adianta forçarmos muito, é começar devagar, uma vez por semana no primeiro mês e aumentando nos meses subsequentes, duas ou três vezes por semana. Com seis meses, conseguir entre quatro a cinco vezes de caminhada na semana, já é bastante coisa”.

O segundo e o terceiro dia após a quimioterapia costumam ser os dias em que os pacientes se sentem mais debilitados, indispostos e é comum sentirem tonturas e boca seca. Então, é muito importante que o paciente respeite os limites do próprio corpo, pegue leve e descanse.

É importante começar devagar, caminhando 10 minutos por dia e dependendo de como a pessoa se sentir, pode-se ir aumentando para 20 ou 30 minutos diários. Dependendo de como a pessoa se sinta, pode-se dividir 30 minutos de caminhada em duas ou três etapas no dia. Mas é importante realizar a atividade e transformá-la em rotina.

Gimenes diz que, no fundo, todo exercício é indicado, mas com alguns é preciso estar atento, como natação, por exemplo. “É uma excelente atividade física, mas se essa pessoa está num momento da quimioterapia ou da radioterapia, ela tem que ter alguns cuidados, porque se porventura ela tiver uma prática de natação ao ar livre, pode tomar sol e acabar manchando a pele por exposição durante a quimio. Na radioterapia também pedimos para tomar cuidado para não expor a pele irradiada a água da piscina, ou até água do mar. Este é um cuidado, mas, de modo geral, não existe nenhuma contraindicação absoluta”, explica o médico.

É importante respeitar a condição do paciente que vai realizar a quimioterapia, ou seja, a condição pré-tratamento. “Se já é um atleta fica muito fácil, mas se é uma pessoa que é sedentária, que nunca teve prática esportiva, e eu me arrisco a dizer que é uma vasta maioria dos pacientes, nós temos que fazer um trabalho de educação física para essa pessoa. É um processo lento, mas progressivo e para o resto da vida”.

Luciana aconselha a quem está passando por tratamento de quimioterapia e deseja iniciar um programa de exercícios, a conversar com seu médico, para garantir que seja seguro e apropriado para a situação. Dessa forma diminuem-se os riscos de qualquer complicação.

A educadora física complementa, “comece devagar. Se você é novo no exercício físico ou está retornando após um tempo longe, comece com exercícios leves e aumente gradualmente a intensidade ao longo do tempo”. A profissional lembra que a fadiga pode ser um problema. “É importante monitorar sua energia e evitar exercícios extenuantes ou prolongados quando estiver se sentindo cansado. Descanse sempre que necessário”.

Outro cuidado importante é a hidratação. Beber água durante o exercício e especialmente durante a quimioterapia é fundamental para manter o corpo em seu funcionamento normal, além de ter o poder de minimizar alguns efeitos colaterais do tratamento.

Pessoas com problemas musculares, articulares ou em risco de osteoporose devem evitar exercícios que possam levar a lesões. O ideal é buscar um profissional de educação física para orientar os exercícios.

 

Riscos dos exercícios durante o tratamento

O oncologista Gimenes alerta para o fato de que se o paciente é sedentário ou nunca fez atividade física, ele deve tomar cuidado. “Às vezes no ímpeto de começar os exercícios pode ocorrer uma lesão no joelho, no tornozelo ou travar a coluna”. Esportes como futebol, basquete e vôlei não são recomendados e devem ser evitados, pois causam impacto e podem provocar quedas.

Luciana aponta alguns riscos aos quais deve-se estar atento.

  • Enfraquecimento do sistema imunológico

A quimioterapia pode afetar esse sistema, tornando a pessoa mais suscetível a infecções e o exercício de intensidade elevada pode prejudicar ainda mais a imunidade do paciente.

  • Fadiga

A quimioterapia pode levar à fadiga, o que pode dificultar a prática do exercício físico. O exercício excessivo pode aumentar essa sensação de cansaço, então deve-se fazer exercícios de intensidade moderada.

  • Risco de lesões

Algumas pessoas podem ter fraqueza muscular, falta de equilíbrio e outros problemas de saúde que podem aumentar o risco de lesões durante o exercício físico.

  • Interferência no tratamento

Em alguns casos, o exercício pode interferir no tratamento de quimioterapia, exercícios intensos, por exemplo, podem influenciar na absorção de medicamentos.

 

Exercícios recomendados

A educadora física explica que o tipo e a intensidade dos exercícios recomendados durante a quimioterapia varia de pessoa para pessoa, dependendo de fatores como a condição física, o tipo de tratamento de quimioterapia e os efeitos colaterais sofridos. Entretanto, de uma forma mais abrangente, Luciana indica alguns tipos de exercícios que podem ser positivos para pessoas em tratamento.

“Exercícios de baixa intensidade. Caminhar, andar de bicicleta estacionária, yoga e natação são exemplos de exercícios de baixa intensidade que podem ajudar a melhorar a resistência e a reduzir a fadiga”, afirma Luciana.

Ela ainda diz que treinamentos de força leves, como levantamento de peso com cargas baixas, elásticos de resistência e exercícios de fortalecimento muscular podem ajudar a manter a força e a massa muscular. Alongamentos podem ajudar a reduzir a rigidez muscular, articular e melhorar a flexibilidade geral do corpo, sendo o pilates um tipo de exercício que combina treinamento de força e flexibilidade.

Exercícios de respiração, como a respiração profunda e controlada podem ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade, além de melhorar a função pulmonar. Práticas como o tai chi e o qigong, incluem exercícios de respiração e movimentos suaves. Além deles, atividades recreativas, como dançar ou jogar tênis, podem ajudar a manter o interesse no exercício físico e melhorar o humor e bem-estar emocional, segundo Luciana.

 

Exercícios não indicados

Existem alguns exercícios que podem ser contraindicados durante a quimioterapia, pois podem aumentar o risco de lesões ou causar complicações de saúde. A educadora física explica que exercícios de alta intensidade como levantamento de peso com cargas elevadas, corridas de longa distância ou treinamento de intervalo de alta intensidade podem ser muito exigentes para o corpo durante a quimioterapia e aumentar o risco de lesões.

Esportes de contato, como futebol, basquete e boxe, também aumentam o risco de lesões ou traumas, especialmente se o sistema imunológico estiver comprometido durante a quimioterapia. Exercícios em locais lotados, como academias, podem aumentar o risco de infecções virais ou bacterianas. Exercícios com risco de quedas, como exercícios de equilíbrio em uma bola de estabilidade ou trampolim, aumentam o risco de quedas e lesões. Exercícios em altitudes elevadas podem exigir mais do corpo e aumentar o risco de  desidratação e insolação do paciente em tratamento.

 

Dicas

  • Atividades como limpar a casa e/ou cuidar do jardim são boas atividades físicas e podem ser bastante positivas para o paciente;
  • aquecimento e alongamento antes de iniciar os exercícios são importantes;
  • yoga e/ou tai chi chuan, não são exercícios aeróbicos, mas fornecem sensação de bem-estar e ajudam na parte psicológica.

 

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